INTERSTÍCIOS DA MEMÓRIA:

MÁRIO DE ANDRADE E GUSTAVO BARROSO

 

Cláudio do Carmo Gonçalves - UFRJ

 

 

Para além da crítica dos discursos repousa aquela constituída a partir dos registros inusitados da experiência social como modulações simbólicas. A investigação de um certo capital sociocultural, bem como das relações que se expressam por vias de contato tradicionais, nem sempre tácteis, pode revelar e dar consistência à produção simbólica na formação do Brasil moderno.

Desvendar complexos que se mostrem decisivos na “rotinização” das práticas imaginárias sintetizados numa sentença básica: conciliação de imaginário e apropriação circunstancial mostra-se de suma eficácia.

Ao que se sabe, embora contemporâneos, Gustavo Barroso e Mário de Andrade não tiveram nenhuma forma de contato pessoal. O que em princípio parece razoável, por estarem os dois situados em pólos tão díspares ideológica e esteticamente, torna-se um dado de estranheza, em virtude do imaginário que os unia. Ou seja, Mário e Barroso aos seus modos pensavam a memória através do patrimônio, buscando resoluções significativas nos seus campos de atuação.

Tal encontro não acontecido causa maior estranheza, sobretudo pela contumaz disposição de Mário em se corresponder com os mais variados protagonistas, e outros nem tanto, da cena brasileira dos anos 20 até sua morte prematura. Cabe observar, que o fator ideológico de certo não constituía entrave a esta disponibilidade às amizades e/ou troca de idéias pessoais.

Portanto, a ausência do encontro não inviabiliza o interstício da memória É sintomático, neste sentido, a correspondência que envolve Mário e o historiador Alberto Lamego1, que durante três anos mantiveram pequena troca de correspondência, as quais estão relacionadas precisamente ao tempo que Mário esteve à frente do Departamento de Cultura de São Paulo.

O historiador Alberto Lamego notabilizara-se pela excelência e originalidade de suas pesquisas históricas, mormente àquelas relacionadas aos fatos e eventos privilegiados das narrativas históricas, como figuras ilustres da República. É fato, no entanto, que o acervo de sua biblioteca desempenhou enorme atração em Mário de Andrade, ao que parece pela capacidade investigatória de Lamego que revelava traços pouco apreciados de nossa cultura ao lado dos reconhecidos eventos notáveis, embora sempre se assentando em uma narrativa histórica absolutamente tradicional.

Este interesse pode ser sintetizado na série brasilianista que Lamego empreendeu e que culmina em sua obra máxima: A Terra Goytacá à luz de documentos inéditos.

 

O sr. mantém em nossa literatura histórica uma posição bastante singular, nesse ponto de vista. Na verdade são raros os historiadores que, como o sr. Escrevem quando realmente possuem alguma novidade a revelar, algum documento inédito, alguma correção bem baseada...2

 

Vê-se que Mário manteve tímida correspondência com Lamego guiado, sobretudo, por interesses acerca do fecundo repertório historiográfico do autor de Terra Goitacá, a despeito do longo caminho que os separava em termos ideológicos.

Lamego representava ao lado de historiadores e intelectuais como Pedro Calmon e o próprio Gustavo Barroso, o que de mais conservador se tinha em termos culturais-historiográficos, o que contribuiria para seu ocaso a partir da nova estética modernista. Suas posições, no campo das idéias, estavam nitidamente expressas em suas visões historiográficas e, não é de se admirar que mantivessem relações de amizade significativas neste mesmo campo, a ponto de Barroso ter se empenhado pessoalmente, através de um capital social notório, pelo destino seguro da coleção Lamego.

Se, no entanto, a despeito das condições que os aproximavam, não se disponibilizou o encontro de Barroso e Mário, observa-se na esfera do imaginário este interstício, ao que chamamos interstício da memória, por ser este o liame entre os dois.

A sedimentada proposição de sistema literário, efetuada por Antonio Candido, equaciona um sentido deflagrador e regulador das letras brasileiras. Deflagrador quando supera as visões pragmáticas e arbitrárias instituídas na historiografia literária brasileira; e regulador ao conceber um viés forçosamente classificatório, tanto mais pelo vigor da obra que pela intenção do autor.

Se a produção simbólica literária pode ser considerada como um conjunto de fatores comuns informados por um sistema de obras que se relacionam através de elementos internos e naturais, como alerta Candido, é mister investigar alguns destes elementos que escapam aos aspectos mais disponibilizados e que, no entanto, fornecem pistas por vezes determinantes no entendimento da realidade socioliterária.

A busca destas variadas ordens de realidade que compõem o literário como sugere Candido em seus “elementos de compreensão”, tem no diálogo obra e vida cotidiana uma evidência pelo método, embora com suas possíveis limitações.

Tomemos duas estratégias singulares na constituição dos elementos articuladores do literário: o capital social e a construção do imaginário. Vale lembrar, que denomino capital social a certa capacidade dos indivíduos de se transformarem por força de injunções apropriativas ou oportunistas em agentes sociais qualificados. Quanto ao imaginário, este se transfigura em forças de recepção que aquecem um estado de espírito. Assim, o imaginário comum é a memória, vista como a grande articulação espiritual do campo literário.

Neste sentido o processo de formação da cultura brasileira e mais especificamente do simbólico literário, é pleno de repertórios que simulam a mediação do capital social. No extremo, esta herança se origina no próprio Caminha, ele próprio um contumaz freqüentador dos ambientes favorecidos da corte portuguesa.

Em Mário de Andrade, a acomodação na fatura modernista é freqüentemente sublinhada como destituída de qualquer capital social e econômico. Mesmo os estudos que permeiam mais sistematicamente neste sentido, notadamente, os de Sérgio Miceli corroboram tal situação. Convém anotar, no entanto, certas condições que desinformam esta aparente descapitalização social.

Sabe-se que sua origem está relacionada a família pequeno-médio burguesa paulistana de fins do século XIX e início do XX, como bem anotou Tele Porto Ancona em pioneiro estudo (1972, p.21). Portanto, não há de todo uma ausência extrema da acumulação social. Tal fato é corroborado na construção impecável da trajetória e fatura cultural que lhe é disponibilizada desde a formação religiosa da juventude até o fim de sua vida.

Se a disponibilidade social e mesmo, em certo sentido cultural, é relutante até o momento modernista de Mário, a arquitetura posterior se revela plena de significados. Evidencia-se neste sentido, as intrincadas relações postuladas, notadamente a partir da decisiva participação no anteprojeto do SPHAN em 1936 e no Departamento de Cultura de São Paulo. Nestes, temos o efeito sintomático da passagem do indivíduo a agente social que costura sua dimensão.

Mário parece conceber a plena significação desta fatura social, embora não a tenha explicitada de forma sistemática. Em carta a Sergio Milliet em 1929 registra com senso irônico e agudo: “a vida do Brasil é feita de camaradagem de presença” (apud DUARTE, 1972, p.25.). Tal dimensão seria decisiva nas demandas a que empresta seu nome.

A sua trajetória consolidada nos aspectos sublinhados de uma acumulação cultural e intelectual extraordinária ganha relevo inusitado quando vistas do prisma da apropriação social ou, em suas palavras, na camaradagem. Neste sentido há um intrincado processo de entrecruzamentos que informam a legitimação intelectual e social. Assim, embora haja a distinção, sua configuração se arquiteta de modo dissimulado que nos faz ver fatura intelectual onde se assenta no extremo a social. É ilustrativa a série de cartas a Rodrigo de Melo Franco, onde fica patente a apropriação, notadamente a que pede para Rodrigo interceder junto a Gustavo Capanema para dar continuidade ao funcionamento do Departamento de Cultura de São Paulo. Nesta demonstra-se uma fatura que, em que pese a preocupação coletiva em nome da instituição, reside o peso das relações fundadas nas trocas sensíveis. Mais reveladora talvez seja a carta que Mário ao sair do Departamento, pelas injunções do Estado Novo, pede emprego a Rodrigo no Rio de Janeiro, o que acarretaria sua estada na cidade durante dois anos.

Os dados oferecidos vislumbram uma tentativa de equacionar elementos de compreensão pouco afeitos na capacidade de constituição literária brasileira e que, indubitavelmente, se revelam como experiências organizadas de tradição, na medida que traçam uma herança assintomática do capital social no país.

Quanto ao imaginário, este se acomoda em duas proposições de memória: a primeira filiada a um aspecto de tradição cultural sedimentada, na qual Gustavo Barroso é herdeiro e defensor contumaz; a outra que funda uma nova tradição memorialística.

Os tons do nacional se transformam num sintomático apelo às raízes puras. Raízes estas que serão encontradas no passado colonial, lembremos da viagem de Mário às cidades históricas, mas resta um diferencial fundamental nas duas memórias postas pelos dois intelectuais: Barroso vai buscar seu nacional espelhando a sedimentação das elites, enquanto Mário busca nos registros inusitados os traços diferenciais deste passado genuíno.

Assim, temos o que podemos chamar de fundação de uma memória nacional em Gustavo Barroso e fundação de uma memória brasileira em Mário de Andrade.

 

 

Referências Bibliográficas:

 

 

ANCONA, Telê Porto. Mário de Andrade: ramais e caminhos. São Paulo, Duas Cidades, 1972.

ANAIS do Museu Histórico Nacional – 1940-1998. Rio de Janeiro, Minc/IPHAN/AAMH, 1999, Vol. I, CD.

CASTRO, Moacir Werneck de. Mário de Andrade – exílio no Rio. Rio de janeiro, Rocco, 1989.

DUARTE, Paulo. Mário de Andrade por ele mesmo. São Paulo, Edart, 1971.

MICELI, Sérgio. Imagens negociadas. São Paulo, Cia das Letras, 1996.

MOURÃO, Rui. Tradição e modernidade. In: Anais do Seminário Mário de Andrade e o Rio de Janeiro. Org. Gilda Salem Szklo.Rio de Janeiro, Casa de Rui Barbosa, 1996, pp.69-80.

SOFFIATI, Arthur. Mário de Andrade em Campos de Goitacazes. Niterói, Eduff, 1992.



1 A correspondência de Mário de Andrade e Alberto Lamego foi documentada em livro por Arthur Soffiati, 1992, do qual os dados referentes aqui compilados são baseados.

2 Carta de Mário de Andrade a Alberto Lamego datada de 12/02/36 in: SOFFIATI, 1992, p.61.